Além da aparência triste
e a sensação de paz presente aos cemitérios,
existe também obras arquitetônicas e esculturais
de valor histórico, e qualidade estética inegáveis.
Nos cemitérios mais antigos, é comum encontrarmos
trabalhos de artistas famosos abrigando os restos de anônimos
abastados. Em alguns casos, os mausoléus são verdadeiras
obras de arte alvos de visita e turismo. Os cemitérios
da Recoleta em Buenos Aires, e Père Lachaise de Paris são
necrópoles consideradas "pontos turísticos"
por sua beleza escultural, e também pela importância
dos que ali, descansam eternamente.
Em
São Paulo, os cemitérios do Araçá
e Consolação podem ser incluídos neste restrito
grupo de "obras da arte tumular". O cemitério
da Consolação abriga obras de Luigi Brizzolara
e Brecheret, além das obras de outros artistas encontradas
no Recife, Rio de Janeiro e Bahia. Porém, no Brasil parece
não existir uma apreciação, mas uma concepção
que relaciona os cemitérios a algum aspecto negativo. Neste
caso, as visitas limitam-se ao dia de finados e outras ocasiões
esporádicas. A beleza das imagens e formas que adornam
os jazigos são ignoradas, e os cemitérios tornam-se
apenas um depósito de cadáveres.
Na segunda metade do século XIX, o imigrante
europeu no Brasil possuía a necessidade de eternizar-se
perante a sociedade e fazer do seu túmulo um símbolo
de prosperidade junto aos seus compatriotas. Assim, os jazigos
eram confeccionados por artistas trazidos da Europa especialmente
para adornar a morada definitiva do colono. Em alguns cemitérios
de São Paulo (principalmente o do Brás), os conjuntos
de capelas refletiam a atmosfera doméstica do bairros italianos
da cidade. Na verdade, a intenção das famílias
imigrantes era fazer dos túmulos extensões do próprio
lar. Os aspectos monumentais, ou humildes dos mausoléus
representavam indiretamente a importância de determinadas
famílias perante à sociedade da época.
O desenvolvimento da arte tumular no Brasil está
intrinsecamente ligado à Europa. Porém, os cemitérios
brasileiros apenas refletem as tendências das principais
metrópoles européias, e se adaptam à disponibilidade
material e cultural.
A chamada belle époque estende-se
até 1890 na arte européia, onde os objetos requintados
que enalteciam os túmulos eram produzidos artesanalmente.
A partir deste momento, inicia-se a art noveau, período
que marcou a produção de caráter industrial
da estrutura arquitetônica e escultural dos jazigos. A utilização
dos recursos mecânicos, ferramentas e novas técnicas
da metalurgia e fundição propiciavam uma rentabilidade
muito maior ao antigo artesão, e neste momento, operário.
Os protótipos encarregavam-se de uniformizar os detalhes
artísticos das esculturas e pilares que sustentavam os
mausoléus, e agora apóiam também a produção
serial dos artigos fúnebres. Assim, o custo foi reduzido
e a sofisticação das obras de arte tumular foi democratizada.
Mesmo as famílias mais pobres poderiam ter um jazigo ostentando
uma certa nobreza.
Com o advento da produção mecânica,
estabeleceu-se nitidamente também novas características
que denunciavam os processos recém criados. A fundição
fornecia portões e grades, cercaduras, cruzes e vigas metálicas,
objetos pré-moldados etc. O escultor assume um papel de
"autor intelectual", cabendo ao estatuário confeccionar
as obras com ajuda de ferramentas elétricas e mecanismo
que facilitavam a produção.
Houve
também uma mudança significativa na transição
entre os períodos da belle époque ao art noveau,
que traduzia as novas intenções e a espiritualidade
dos artistas. A simbologia escatológica (tradicional, e
quase obrigatória) foi deixada de lado, tanto nas figuras
individuais como num contexto na distribuição geral
da alegoria. Em seu lugar, passaram a serem usadas imagens de
um teor lírico porém realista. A figura do Anjo
alado e assexuado, assume uma aparência humanizada, e a
condição de personagem do cotidiano. Por vezes uma
imagem infantil, outras vezes adolescente, torna-se um Anjo de
procissão, acessível e impregnado de realismo; mas
teatral e dramático quando preciso.
Outro ponto de sensível mudança na
belle époque foi a inserção de alegorias
simbolizando prosperidade, prestígio e fortuna. A presença
de figuras pagãs, como Hermes (deus do comércio)
ou mitológicas também são constantes.
A arte cemiterial brasileira teve sua ignição
ao final do século XIX e início do XX. Nesse momento,
foi reunida a disposição de famílias com
recursos financeiros e a intenção de construir túmulos
suntuosos a partir do trabalho de artistas famosos da Europa,
principalmente os italianos. É nesse período que
Brecheret produz suas peças modernistas nos cemitérios
brasileiros. Emendabili, Oliani e Nicola Muniz denotam monumentalidade
e sensualismo em sua esculturas. A presença do nu é
considerada uma grande inovação. Todas as obras
apresentam um riqueza extrema de detalhes, e uma leveza só
atingida por artistas de expressão e talento elevados como
os escultores que aqui aportaram.
No Brasil torna-se muito difícil encontrar
uma linha cronológica evolutiva da arte cemiterial. Na
verdade, não houve uma seqüência lógica,
e sim um aglomerado de peças (algumas de procedência
duvidosa) dispostas de forma aleatória nas necrópoles.
A maioria dos cemitérios não acompanharam o crescimento
populacional, e a organização tumular ficou comprometida.
Outro fator que contribui para a degradação da arte
cemiterial brasileira, é o estado lamentável de
conservação das obras e das necrópoles num
ponto de vista generalizado. Principalmente nos mais antigos,
peças de inestimável valor histórico e artístico
estão sendo destruídas pela ação do
tempo e o vandalismo. O roubo de esculturas e objetos de bronze
(para serem comercializadas ilegalmente) também cooperam
para a perda irreparável destas obras que fazem parte do
patrimônio artístico nacional. Atualmente, não
existe uma produção voltada exclusivamente para
a arte cemiterial. Poucos artistas dedicam-se a essa atividade,
principalmente depois da criação dos "cemitérios-jardim",
onde a presença do mausoléu, com sua grandeza e
requinte, está praticamente extinta. Também devido
ao alto custo das construções, já não
existem famílias interessadas em sepultar seus mortos com
a nobreza de outros tempos.
Cemitérios
Paulistanos
|
Cemitérios |
Área
(m²) |
Ano
da Fundação |
|
Araçá
|
222.000
|
1887
|
|
Brás |
182.860
|
1880
|
|
Campo
Grande |
138.912
|
1953
|
|
Consolação
|
76.340
|
1856
|
|
Dom Bosco |
254.000
|
1971
|
|
Freguesia
do Ó |
15.000
|
1908
|
|
Itaquera |
115.572
|
1929
|
|
Lajeado |
56.970
|
1903
|
|
Lapa |
76.942
|
1918
|
|
Parelheiros |
1.800
|
1956
|
|
Penha |
16.880
|
1910
|
|
Santana |
38.485
|
1897
|
|
Santo
Amaro |
28.800
|
1856
|
|
São
Luiz |
326.000
|
1981 |
|
São
Paulo |
104.000
|
1926
|
|
São
Pedro |
219.780
|
1971
|
|
Saudade |
134.000
|
1960
|
|
Tremembé |
80.212
|
1937
|
|
Vila
Formosa I - II |
763.000
|
1949 |
|
Vila
Mariana |
73.699
|
1904
|
|
Vila
Nova Cachoeirinha |
350.000
|
1968
|
Fonte:
Serviço Funerário do Município de São
Paulo
Texto
original de Beatrix Algrave
Extraído
e adaptado de www.beatrix.pro.br