O guia turístico anuncia:
- Aqui vemos a obra Sepultamento, de Victor
Brecheret, um dos artistas mais famosos do Modernismo brasileiro.
Essa escultura é datada de 1923 e foi feita em granito.
Olhares curiosos e vivos reparam no ambiente ao
redor. Uma criança nota os belos anjos esculpidos em bronze
bem próximos a ela e estende a mão para tocá-los.
Aqui surge a primeira diferença entre um museu normal e
este: qualquer pessoa pode encostar nas obras ou até mesmo
tirar fotos. Essa não é a única novidade,
imagine ir a um museu a céu aberto! Onde existem árvores
e pássaros para fazer companhia às esculturas dos
mais famosos artistas dos séculos 19 e 20.
Ninguém pensaria na existência de
um lugar desses em plena São Paulo. No entanto, o mais
velho desses locais nasceu em 1868 e possui obras de artistas
como: Galileo Emendabili, Bruno Giorgi e Nicolina Vaz de Assis.
Aos curiosos, o nome de um desses maravilhosos museus: Cemitério
da Consolação, o mais antigo de São Paulo.
Alguns especialistas afirmam ser o cemitério,
um prolongamento da própria casa. Devido à grande
miscigenação do povo brasileiro, nossos cemitérios
são povoados por resquícios da cultura e arquitetura
de todo o mundo. Muitos túmulos foram feitos com materiais
importados, por artistas conhecidos e são hoje uma riqueza
a ser prestigiada e preservada.
Entretanto,
o Brasil pouco desenvolve seu turismo em cemitérios em
virtude do preconceito das pessoas em relação ao
local, por ser macabro, rememorar a morte e trazer sentimentos
de dor, perda e saudades. Há pouca divulgação
e planeja- mento de visitas orientadas ao local, em São
Paulo, por exemplo, apenas o Cemitério da Consolação
tem esse serviço organizado. Espaços como o Cemitério
do Araçá, um dos maiores de São Paulo e com
mais de 80 obras de arte catalogadas, não apresentam esse
serviço. "De vez em quando vem um grupo interessando
em receber informações sobre o Araçá,
nesse caso nós indicamos um coveiro para mostrar as obras
de arte, contar algumas histórias, nada muito formal",
comenta Elias Rodolpho, Administrador do Cemitério do Araçá.
"Às vezes eu levo umas pessoas para tirar fotos
ou desenhar as obras de arte daqui ou mostro os mausoléus
dos famosos, mas vem pouca gente, quase ninguém quer ver
gente morta e túmulo", completa o coveiro do
mesmo cemitério, conhecido como Massau.
Talvez se houvesse excursões a esses locais,
com explicações sobre a história, arquitetura
e curiosidades, os brasileiros se sentiriam mais à vontade
com o assunto, pois em todo o mundo, cemitérios são,
não somente pontos turísticos, mas também
um local para fazer piquenique, ler ou namorar, os exemplos mais
conhecidos são o Cemitério Père-Lachaise
e o Montparnasse em Paris, França. "Eu gostaria
de fazer uma visita monitorada a um cemitério, pois é
um lugar tranqüilo e bonito, onde é possível
admirar belas esculturas e mausoléus", afirma
a estudante de enfermagem Andrea.
No entanto, com o aparecimento dos popularmente
chamados "cemitérios-jardim", a falta de incentivo
ao turismo, a constante depredação e o alto custo
de materiais como o mármore e bronze; a feição
de obras de arte para cemitérios e profissionais capacitados
para o trabalho estão se extinguindo. Portanto, a quem
pretende visitar o lugar, é melhor ser rápido, pois
no futuro os cemitérios serão cada vez menos portadores
de valor artístico.
Por Natália
Constantino