(Por
Sigmund Freud - 1917)
Tendo os sonhos nos servido de protótipo
das perturbações mentais narcisistas na vida normal,
tentaremos agora lançar alguma luz sobre a natureza da
melancolia, comparando-a com o afeto normal do luto. Dessa vez,
porém, devemos começar por fazer uma confissão,
como advertência contra qualquer superestimação
do valor de nossas conclusões. A melancolia, cuja definição
varia inclusive na psiquiatria descritiva, assume várias
formas clínicas, cujo agrupamento numa única unidade
não parece ter sido estabelecido com certeza, sendo que
algumas dessas formas sugerem afecções antes somáticas
do que psicogênicas. Nosso material, independentemente de
tais impressões acessíveis a todo observador, limita-se
a um pequeno número de casos de natureza psicogênica
indiscutível. Desde o início, portanto, abandonaremos
toda e qualquer reivindicação à validade
geral de nossas conclusões, e nos consolaremos com a reflexão
de que, com os meios de pesquisa à nossa disposição
hoje em dia, dificilmente descobriríamos alguma coisa que
não fosse típica, se não de toda uma classe
de perturbações, pelo menos de um pequeno grupo
delas.
A correlação entre a melancolia e
o luto parece justificada pelo quadro geral dessas duas condições.
Além disso, as causas excitantes devidas
a influências ambientais são, na medida em que podemos
discerni-las, as mesmas para ambas as condições.
O luto, de modo geral, é a reação à
perda de um ente querido, à perda de alguma abstração
que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade
ou o ideal de alguém, e assim por diante. Em algumas pessoas,
as mesmas influências produzem melancolia em vez de luto;
por conseguinte, suspeitamos que essas pessoas possuem uma disposição
patológica. Também vale a pena notar que, embora
o luto envolva graves afastamentos daquilo que constitui a atitude
normal para com a vida, jamais nos ocorre considerá-lo
como sendo uma condição patológica e submetê-lo
a tratamento médico. Confiamos que seja superado após
certo lapso de tempo, e julgamos inútil ou mesmo prejudicial
qualquer interferência em relação a ele.
Os traços mentais distintivos da melancolia
são um desânimo profundamente penoso, a cessação
de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar,
a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição
dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar expressão
em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando
numa expectativa delirante de punição. Esse quadro
torna-se um pouco mais inteligível quando consideramos
que, com uma única exceção, os mesmos traços
são encontrados no luto. A perturbação da
auto-estima está ausente no luto; fora isso, porém,
as características são as mesmas. O luto profundo,
a reação à perda de alguém que se
ama, encerra o mesmo estado de espírito penoso, a mesma
perda de interesse pelo mundo externo na medida em que este não
evoca esse alguém , a mesma perda da capacidade de adotar
um novo objeto de amor (o que significaria substituí-lo)
e o mesmo afastamento de toda e qualquer atividade que não
esteja ligada a pensamentos sobre ele. É fácil constatar
que essa inibição e circunscrição
do ego é expressão de uma exclusiva devoção
ao luto, devoção que nada deixa a outros propósitos
ou a outros interesses. E, realmente, só porque sabemos
explicá-la tão bem é que essa atitude não
nos parece patológica.
Parece-nos também uma comparação
adequada chamar a disposição para o luto de "dolorosa".
É bem provável que vejamos a justificação
disso quando estivermos em condições de apresentar
uma caracterização da economia da dor.
Em que consiste, portanto, o trabalho que o luto
realiza ? Não me parece forçado apresentá-lo
da forma que se segue. O teste da realidade revelou que o objeto
amado não existe mais, passando a exigir que toda a libido
seja retirada de suas ligações com aquele objeto.
Essa exigência provoca uma oposição compreensível
é fato notório que as pessoas nunca abandonam de
bom grado uma posição libidinal, nem mesmo, na realidade,
quando um substituto já se lhes acena. Essa oposição
pode ser tão intensa que dá lugar a um desvio da
realidade e a um apego ao objeto por intermédio de uma
psicose alucinatória carregada de desejo. Normalmente,
prevalece o respeito pela realidade, ainda que suas ordens não
possam ser obedecidas de imediato. São executadas pouco
a pouco, com grande dispêndio de tempo e de energia catexial,
prolongando-se psiquicamente, nesse meio tempo, a existência
do objeto perdido. Cada uma das lembranças e expectativas
isoladas, através das quais a libido está vinculada
ao objeto, é evocada e hipercatexizada, e o desligamento
da libido se realiza em relação a cada uma delas.
Por que essa transigência, pela qual o domínio da
realidade se faz fragmentariamente, deve ser não extraordinariamente
penosa, de forma alguma é coisa fácil de explicar
em termos de economia. É notável que esse penoso
desprazer seja aceito por nós como algo natural. Contudo,
o fato é que, quando o trabalho do luto se conclui, o ego
fica outra vez livre e desinibido.
Apliquemos agora à melancolia o que aprendemos
sobre o luto. Num conjunto de casos é evidente que a melancolia
também pode constituir reação à perda
de um objeto amado. Onde as causas excitantes se mostram diferentes,
pode-se reconhecer que existe uma perda de natureza mais ideal.
O objeto talvez não tenha realmente morrido,
mas tenha sido perdido enquanto objeto de amor (como no caso,
por exemplo, de uma noiva que tenha levado o foro). Ainda em outros
casos nos sentimos justificados em sustentar a crença de
que uma perda dessa espécie ocorreu; não podemos,
porém, ver claramente o que foi perdido, sendo de todo
razoável supor que também o paciente não
pode conscientemente perceber o que perdeu. Isso, realmente, talvez
ocorra dessa forma, mesmo que o paciente esteja cônscio
da perda que deu origem à sua melancolia, mas apenas no
sentido de que sabe quem ele perdeu, mas não o que perdeu
nesse alguém. Isso sugeriria que a melancolia está
de alguma forma relacionada a uma perda objetal retirada da consciência,
em contraposição ao luto, no qual nada existe de
inconsciente a respeito da perda.
No luto, verificamos que a inibição
e a perda de interesse são plenamente explicadas pelo trabalho
do luto no qual o ego é absorvido. Na melancolia, a perda
desconhecida resultará num trabalho interno semelhante
e será, portanto, responsável pela inibição
melancólica. A diferença consiste em que a inibição
do melancólico nos parece enigmática porque não
podemos ver o que é que o está absorvendo tão
completamente. O melancólico exibe ainda uma outra coisa
que está ausente no luto uma diminuição extraordinária
de sua auto-estima, um empobrecimento de seu ego em grande escala.
No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia,
é o próprio ego. O paciente representa seu ego para
nós como sendo desprovido de valor, incapaz de qualquer
realização e moralmente desprezível, ele
se repreende e se envilece, esperando ser expulso e .punido. Degrada-se
perante todos, e sente comiseração por seus próprios
parentes por estarem ligados a uma pessoa tão desprezível.
Não acha que uma mudança se tenha processado nele,
mas estende sua auto-crítica até o passado, declarando
que nunca foi melhor. Esse quadro de um delírio de inferioridade
(principalmente moral) é completado pela insônia
e pela recusa a se alimentar, e o que é psicologicamente
notável por uma superação do instinto que
compele todo ser vivo a se apegar à vida.
Seria igualmente infrutífero, de um ponto
de vista científico e terapêutico, contradizer um
paciente que faz tais acusações contra seu ego.
Certamente, de alguma forma ele deve estar com a razão
e descreve algo que é como lhe parece ser. Devemos, portanto,
confirmar de imediato, e sem reservas, algumas de suas declarações.
Ele se encontra, de fato, tão desinteressado e tão
incapaz de amor e de realização quanto afirma. Mas
isso, como sabemos, é secundário; trata-se do efeito
do trabalho interno que lhe consome o ego trabalho que, nos sendo
desconhecido, é, porém, comparável ao do
luto. O paciente também nos parece justificado em fazer
outras auto-acusações; apenas, ele dispõe
de uma visão mais penetrante da verdade do que outras pessoas
que não são melancólicas. Quando, em sua
exacerbada auto-crítica, ele se descreve como mesquinho,
egoísta, desonesto, carente de independência, alguém
cujo único objetivo tem sido ocultar as fraquezas de sua
própria natureza, pode ser, até onde sabemos, que
tenha chegado bem perto de se compreender a si mesmo; ficamos
imaginando, tão-somente, por que um homem precisa adoecer
para ter acesso a uma verdade dessa espécie. Com efeito,
não pode haver dúvida de que todo aquele que sustenta
e comunica a outros uma opinião de si mesmo como esta (opinião
que Hamlet tinha a respeito tanto de si quanto de todo mundo),
está doente, quer fale a verdade, quer se mostre mais ou
menos injusto para consigo mesmo. Tampouco é difícil
ver que, até onde podemos julgar, não há
correspondência entre o grau de auto-degradação
e sua real justificação. Uma mulher boa, capaz e
conscienciosa, não terá palavras mais elogiosas
para si mesma, durante a melancolia, do que uma que de fato seja
desprovida de valor; realmente, talvez a primeira tenha mais probabilidades
de contrair a doença do que a segunda, a cujo respeito
também nós nada teríamos a dizer de bom.
Por fim, deve ocorrer-nos que, afinal de contas, o melancólico
não se comporta da mesma maneira que uma pessoa esmagada,
de uma forma normal, pelo remorso e pela auto-recriminação.
Sentimentos de vergonha diante de outras pessoas que, mais do
que qualquer outra coisa, caracterizariam essa última condição,
faltam ao melancólico ou, pelo menos, não são
proeminentes nele. Poder-se-ia ressaltar a presença nele
de um traço quase oposto, de uma insistente comunicabilidade,
que encontra satisfação no desmascaramento de si
mesmo.
O ponto essencial, portanto, não consiste
em saber se a auto-difamação aflitiva do melancólico
é correta, no sentido de que sua auto-crítica esteja
de acordo com a opinião de outras pessoas. O ponto consiste,
antes, em saber se ele está apresentando uma descrição
correta de sua situação psicológica. Ele
perdeu seu amor-próprio e deve ter tido boas razões
para tanto. É verdade que então nos deparamos com
uma contradição que coloca um problema de difícil
solução. A analogia com o luto nos levou a concluir
que ele sofrera uma perda relativa a um objeto; o que o paciente
nos diz aponta para uma perda relativa a seu ego.
Antes de passarmos a essa contradição,
detenhamo-nos um pouco no conceito que a perturbação
do melancólico oferece a respeito da constituição
do ego humano. Vemos como nele uma parte do ego se coloca contra
a outra, julga-a criticamente e, por assim dizer, toma-a como
seu objeto. Nossa desconfiança de que o agente crítico,
que aqui se separa do ego, talvez também revele sua independência
em outras circunstâncias, será confirmada ao longo
de toda a observação ulterior.
Realmente, encontraremos fundamentos para distinguir
esse agente do restante do ego. Aqui, estamo-nos familiarizando
com o agente comumente denominado "consciência";
vamos incluí-lo, juntamente com a censura da consciência
e do teste da realidade, entre as principais instituições
do ego, e poderemos provar que ela pode ficar doente por sua própria
causa. No quadro clínico da melancolia, a insatisfação
com o ego constitui, por motivos de ordem moral, a característica
mais marcante. Freqüentemente, a auto-avaliação
do paciente se preocupa muito menos com a enfermidade do corpo,
a feiúra ou a fraqueza, ou com a inferioridade social;
quanto a essa categoria, somente seu temor da pobreza e as afirmações
de que vai ficar pobre ocupam posição proeminente.
Há uma observação, de modo
algum difícil de ser feita, que leva à explicação
da contradição mencionada acima [no fim do penúltimo
parágrafo]. Se se ouvir pacientemente as muitas e variadas
auto-acusações de um melancólico, não
se poderá evitar, no fim, a impressão de que freqüentemente
as mais violentas delas dificilmente se aplicam ao próprio
paciente, mas que, com ligeiras modificações, se
ajustam realmente a outrém, a alguém que o paciente
ama, amou ou deveria amar. Toda vez que se examinam os fatos,
essa conjectura é confirmada. É assim que encontramos
a chave do quadro clínico: percebemos que as auto-recriminações
são recriminações feitas a um objeto amado
que foram deslocadas desse objeto para o ego do próprio
paciente.
A mulher que lamenta em altos brados o fato de
o marido estar preso a uma esposa incapaz como ela, na verdade
está acusando o marido de ser incapaz, não importando
o sentido que ela possa atribuir a isso. Não há
por que se surpreender com o fato de haver algumas auto-recriminações
autênticas difundidas entre as que foram transpostas. Permite-se
que estas se intrometam, de uma vez que ajudam a mascarar as outras
e a tornar impossível o reconhecimento do verdadeiro estado
de coisas. Além disso, elas derivam dos prós e dos
contras do conflito amoroso que levou à perda do amor.
Também o comportamento dos pacientes, agora, se torna bem
mais inteligível. Suas queixas são realmente "queixumes",
no sentido antigo da palavra. Eles não se envergonham,
nem se ocultam, já que tudo de desairoso que dizem sobre
eles próprios refere-se, no fundo, à outra pessoa.
Além disso, estão longe de demonstrar
perante aqueles que o cercam uma atitude de humildade e submissão
única que caberia a pessoas tão desprezíveis.
Pelo contrário, tornam-se as pessoas mais maçantes,
dando sempre a impressão de que se sentem desconsideradas
e de que foram tratadas com grande injustiça. Tudo isso
só é possível porque as reações
expressas em seu comportamento ainda procedem de uma constelação
mental de revolta que, por um certo processo, passou então
para o estado esmagado de melancolia.
Não é difícil reconstruir
esse processo. Existem, num dado momento, uma escolha objetal,
uma ligação da libido a uma pessoa particular; então,
devido a uma real desconsideração ou desapontamento
proveniente da pessoa amada, a relação objetal foi
destroçada. O resultado não foi o normal uma retirada
da libido desse objeto e um deslocamento da mesma para um novo
, mas algo diferente, para cuja ocorrência várias
condições parecem ser necessárias. A catexia
objetal provou ter pouco poder de resistência e foi liquidada.
Mas a libido livre não foi deslocada para outro objeto;
foi retirada para o ego. Ali, contudo, não foi empregada
de maneira não especificada, mas serviu para estabelecer
uma identificação do ego com o objeto abandonado.
Assim a sombra do objeto caiu sobre o ego, e este pôde,
daí por diante, ser julgado por um agente especial, como
se fosse um objeto, o objeto abandonado.
Dessa forma, uma perda objetal se transformou numa
perda do ego, e o conflito entre o ego e a pessoa amada, numa
separação entre a atividade crítica do ego
e o ego enquanto alterado pela identificação.
Uma ou duas coisas podem ser diretamente inferidas
no tocante às pré-condições e aos
efeitos de um processo como este. Por um lado, uma forte fixação
no objeto amado deve ter estado presente; por outro, em contradição
a isso, a catexia objetal deve ter tido pouco poder de resistência.
Conforme Otto Rank observou com propriedade, essa
contradição parece implicar que a escolha objetal
é efetuada numa base narcisista, de modo que a catexia
objetal, ao se defrontar com obstáculos, pode retroceder
para o narcisismo. A identificação narcisista com
o objeto se torna então um substituto da catexia erótica;
em conseqüência, apesar do conflito com a pessoa amada,
não é preciso renunciar à relação
amorosa. Essa substituição da identificação
pelo amor objetal constitui importante mecanismo nas afecções
narcisistas; Karl Landauer (1914), recentemente, teve ocasião
de indicá-lo no processo de recuperação num
caso e esquizofrenia. Ele representa, naturalmente, uma regressão
de um tipo de escolha objetal para o narcisismo original. Mostramos
em outro ponto que a identificação é uma
etapa preliminar da escolha objetal, que é a primeira forma
e uma forma expressa de maneira ambivalente pela qual o ego escolhe
um objeto. O ego deseja incorporar a si esse objeto e, em conformidade
com a fase oral ou canibalista do desenvolvimento libidinal em
que se acha, deseja fazer isso devorando-o. Abraham, sem vida,
tem razão em atribuir a essa conexão à recusa
de alimento encontrada em formas graves de melancolia.
A conclusão que nossa teoria exigiria a
saber, que a tendência a adoecer de melancolia (ou parte
dessa tendência) reside na predominância do tipo narcisista
da escolha objectal infelizmente ainda não foi confirmada
pela observação. Nas reações introdutórias
deste artigo, admiti que o material empírico em que se
fundamentou este estudo é insuficiente para as nossas necessidades.
Se pudéssemos presumir um acordo entre os resultados da
observação e o que inferimos, não hesitaríamos
em incluir em nossa caracterização da melancolia
essa regressão da catexia objetal para a fase oral ainda
narcisista da libido. Também nas neuroses de transferência
as identificações com o objeto de modo algum são
raras; na realidade, constituem um conhecido mecanismo de formação
de sintomas, especialmente na histeria. Contudo, a diferença
entre a identificação narcisista e a histérica
pode residir no seguinte: ao passo que na primeira a catexia objetal
é abandonada, na segunda persiste e manifesta sua influência,
embora isso em geral esteja confinado a certas ações
e inervações isoladas. Seja como for, também
nas neuroses de transferência a identificação
é a expressão da existência de algo em comum,
que pode significar amor. A identificação narcisista
é a mais antiga das duas e prepara o caminho para uma compreensão
da identificação histérica, que tem sido
estudada menos profundamente.
A melancolia, portanto, toma emprestado do luto
alguns dos seus traços e, do processo de regressão,
desde a escolha objetal narcisista para o narcisismo, os outros.
É por um lado, como o luto, uma reação à
perda real de um objeto amado; mas, acima de tudo isso, é
assinalada por uma determinante que se acha ausente no luto normal
ou que, se estiver presente, transforma este em luto patológico.
A perda de um objeto amoroso constitui excelente oportunidade
para que a ambivalência nas relações amorosas
se faça efetiva e manifesta. Onde existe uma disposição
para a neurose obsessiva, o conflito devido à ambivalência
empresta um cunho patológico ao luto, forçando-o
a expressar-se sob forma de auto-recriminação, no
sentido de que a própria pessoa enlutada é culpada
pela perda do objeto amado, isto é, que ela a desejou.
Esses estados obsessivos de depressão que se seguem à
morte de uma pessoa amada, revelam-nos o que o conflito devido
à ambivalência pode alcançar por si mesmo
quando também não há uma retração
regressiva da libido.
Na melancolia, as ocasiões que dão
margem à doença vão, em sua maior parte,
além do caso nítido de uma perda por morte, incluindo
as situações de desconsideração, desprezo
ou desapontamento, que podem trazer para a relação
sentimentos opostos de amor e ódio, ou reforçar
uma ambivalência já existente. Esse conflito devido
à ambivalência, que por vezes surge mais de experiências
reais, por vezes mais de fatores constitucionais, não deve
ser desprezado entre as pré-condições da
melancolia. Se o amor pelo objeto um amor que não pode
ser renunciado, embora o próprio objeto o seja se refugiar
na identificação narcisista, então o ódio
entra em ação nesse objeto substitutivo, dele abusando,
degradando-o, fazendo-o sofrer e tirando satisfação
sádica de seu sofrimento. A auto-tortura na melancolia,
sem dúvida agradável, significa, do mesmo modo que
o fenômeno correspondente na neurose obsessiva, uma satisfação
das tendências do sadismo e do ódio relacionadas
a um objeto, que retornaram ao próprio eu do indivíduo
nas formas que vimos examinando. Via de regra, em ambas as desordens,
os pacientes ainda conseguem, pelo caminho indireto da auto-punição,
vingar-se do objeto original e torturar o ente amado através
de sua doença, à qual recorrem a fim de evitar a
necessidade de expressar abertamente sua hostilidade para com
ele. Afinal de contas, a pessoa que ocasionou a desordem emocional
do paciente, e na qual sua doença se centraliza, em geral
se encontra em seu ambiente imediato. A catexia erótica
do melancólico no tocante a seu objeto sofreu assim uma
dupla vicissitude: parte dela retrocedeu à identificação,
mas a outra parte, sob a influência do conflito devido à
"ambivalência", foi levada de volta à etapa
de sadismo que se acha mais próxima do conflito.
É exclusivamente esse sadismo que soluciona
o enigma da tendência ao suicídio, que torna a melancolia
tão interessante e tão perigosa. Tão imenso
é o amor de si mesmo do ego (seIflove), que chegamos a
reconhecer como sendo o estado primevo do qual provém a
vida instintual, e tão vasta é a quantidade de libido
narcisista que vemos liberada no medo surgido de uma ameaça
à vida, que não podemos conceber como esse ego consente
em sua própria destruição. De há muito,
é verdade, sabemos que nenhum neurótico abriga pensamentos
de suicídio que não consistam em impulsos assassinos
contra outros, que ele volta contra si mesmo, mas jamais fomos
capazes de explicar que forças interagem para levar a cabo
esse propósito. A análise da melancolia mostra agora
que o ego só pode se matar se, devido ao retorno da catexia
objetal, puder tratar a si mesmo corno um objeto se for capaz
de dirigir contra si mesmo a hostilidade relacionada a um objeto,
e que representa a reação original do ego para com
objetos do mundo externo. Assim, na regressão desde a escolha
objetal narcisista, é verdade que nos livramos do objeto;
ele, não obstante, se revelou mais poderoso do que o próprio
ego. Nas duas situações opostas, de paixão
intensa e de suicídio, o ego é dominado pelo objeto,
embora de maneiras totalmente diferentes.
Quanto ao marcante traço particular da melancolia
que mencionamos, a proeminência do medo de ficar pobre,
parece plausível supor que se origina do erotismo anal
que foi arrancado de seu contexto e alterado num sentido regressivo.
A melancolia ainda nos confronta com outros problemas,
cuja resposta em parte nos escapa. O fato de desaparecer após
certo tempo, sem deixar quaisquer vestígios de grandes
alterações, é uma característica que
ela compartilha com o luto. Verificamos, à guisa de explanação,
que, no luto, se necessita de tempo para que o domínio
do teste da realidade seja levado a efeito em detalhe e que, uma
vez realizado esse trabalho, o ego consegue libertar sua libido
do objeto perdido. Podemos imaginar que o ego se ocupa com um
trabalho análogo no decorrer de uma melancolia; em nenhum
dos dois casos dispomos de qualquer compreensão interna
(insight) da economia do curso dos eventos. Na melancolia, a insônia
atesta a rigidez da condição, a impossibilidade
de se efetuar o retraimento geral das catexias necessário
ao sono. O complexo de melancolia se comporta como uma ferida
aberta, atraindo a si as energias catexiais que nas neuroses de
transferência denominamos de "anticatexias" provenientes
de todas as direções, e esvaziando o ego até
este ficar totalmente empobrecido. Facilmente, esse complexo pode
provar ser resistente ao desejo, por parte do ego, de dormir.
O que provavelmente é um fator somático,
fator este que não pode ser explicado psicologicamente,
torna-se visível na melhoria regular da condição,
que se verifica por volta do anoitecer. Essas considerações
nos levam a perguntar se uma perda no ego, independentemente do
objeto um golpe puramente narcisista contra o ego , não
bastará para produzir o quadro de melancolia, e se um empobrecimento
da libido do ego, directamente por causa de toxinas, não
será capaz de produzir certas formas de doença.
A característica mais notável da
melancolia, e aquela que mais precisa de explicação,
é sua tendência a se transformar em mania estado
este que é o oposto dela em seus sintomas. Como sabemos,
isso não acontece a toda melancolia. Alguns casos seguem
seu curso em recaídas periódicas, entre cujos intervalos
sinais de mania talvez estejam inteiramente ausentes ou sejam
apenas muito leves. Outros revelam a alteração regular
de fases melancólicas e maníacas que leva à
hipótese de uma insanidade circular. Veríamo-nos
tentados a considerar esses casos como não sendo psicogênicos,
se não fosse o fato de que o método psicanalítico
conseguiu chegar a uma solução e efetuar uma melhoria
terapêutica em vários casos precisamente dessa espécie.
Não é apenas permissível, portanto, mas imperioso,
estender uma explanação analítica da melancolia
também à mania.
Não posso prometer que essa tentativa venha
a ser inteiramente satisfatória. Mal nos leva além
da possibilidade de tomarmos nossa orientação inicial.
Temos duas coisas a empreender: a primeira é uma impressão
psicanalítica; a segunda, o que talvez possamos chamar
de um tema de experiência econômica geral.
A impressão que vários investigadores
psicanalíticos já puseram em palavras é que
o conteúdo da mania em nada difere do da melancolia, que
ambas as desordens lutam com o mesmo "complexo", mas que, provavelmente,
na melancolia o ego sucumbe ao complexo, ao passo que na mania
domina-o ou o põe de lado. Nosso segundo indicador é
proporcionado pela observação de que todos os estados,
tais como a alegria, a exultação ou o triunfo, que
nos fornecem o modelo normal para a mania, dependem das mesmas
condições econômicas. Aqui, aconteceu que,
como resultado de alguma influência, um grande dispêndio
de energia psíquica, de há muito mantido ou que
ocorre habitualmente, finalmente se torna desnecessário,
de modo que se encontra disponível para numerosas aplicações
e possibilidades de descarga quando, por exemplo, algum pobre
miserável, ganhando uma grande soma de dinheiro, fica subitamente
aliviado da preocupação crônica com seu pão
de cada dia, ou quando uma longa e árdua luta se vê
afinal coroada de êxito, ou quando um homem se encontra
em condições de se desfazer, de um só golpe,
de alguma compulsão opressiva, alguma posição
falsa que teve de manter por muito tempo, e assim por diante.
Todas essas situações se caracterizam pela animação,
pelos sinais de descarga de uma emoção jubilosa
e por maior disposição para todas as espécies
de ação da mesma maneira que na mania, e em completo
contraste com a depressão e a inibição da
melancolia. Podemos aventurar-nos a afirmar que a mania nada mais
é do que um triunfo desse tipo; só que aqui, mais
uma vez, aquilo que o ego dominou e aquilo sobre o qual está
triunfando permanecem ocultos dele. A embriaguez alcoólica,
que pertence à mesma classe de estados, pode (na medida
em que é de exaltação) ser explicada da mesma
maneira; aqui, provavelmente, ocorre uma suspensão, produzida
por toxinas, de dispêndios de energia na repressão.
A opinião popular gosta de presumir que uma pessoa num
estado maníaco desse tipo se deleita no movimento e na
ação porque ela é muito "alegre". Naturalmente,
essa falsa conexão deve ser corrigida. O fato é
que a condição econômica na mente do indivíduo,
mencionada acima, foi atendida, sendo essa a razão por
que ele se acha tão animado, por um lado, e tão
desinibido em sua ação, por outro.
Se reunirmos essas duas indicações,
encontraremos o seguinte. Na mania, o ego deve ter superado a
perda do objeto (ou seu luto pela perda, ou talvez o próprio
objeto), e, conseqüentemente, toda a quota de anticatexia
que o penoso sofrimento da melancolia tinha atraído para
si vinda do ego e "vinculado" se terá tornado disponível.
Além disso, o indivíduo maníaco demonstra
claramente sua liberação do objeto que causou seu
sofrimento, procurando, como um homem vorazmente faminto, novas
catexias objetais.
Essa explicação certamente parece
plausível mas, em primeiro lugar, é por demais indefinida
e, em segundo, dá margem a mais novos problemas e dúvidas
do que podemos responder. Não fugiremos a um exame dos
mesmos, embora não possamos esperar que esse exame nos
leve a uma compreensão nítida.
Em primeiro lugar, também o luto normal
supera a perda de objeto e também, enquanto persiste, absorve
todas as energias do ego. Por que, então, depois de seguir
seu curso, não há, em seu caso, qualquer indício
da condição econômica necessária a
uma fase de triunfo ? Acho impossível responder a essa
objeção diretamente. Também chama a nossa
atenção para o fato de que nem sequer conhecemos
os meios econômicos pelos quais o luto executa sua tarefa.
Possivelmente, contudo, uma conjectura nos ajudará aqui.
Cada uma das lembranças e situações de expectativa
que demonstram a ligação da libido ao objeto perdido
se defrontam com o veredicto da realidade segundo o qual o objeto
não mais existe; e o ego, confrontado, por assim dizer,
com a questão de saber se partilhará desse destino,
é persuadido, pela soma das satisfações narcisistas
que deriva de estar vivo, a romper sua ligação com
o objeto abolido. Talvez possamos supor que esse trabalho de rompimento
seja tão lento e gradual que, na ocasião em que
tiver sido concluído, o dispêndio de energia necessária
a ele também se tenha dissipado.
É tentador continuar a partir dessa conjectura
sobre o trabalho do luto e tentar apresentar um relato do trabalho
da melancolia. Aqui, de início, nos defrontamos com uma
incerteza. Até agora, quase não consideramos a melancolia
do ponto de vista topográfico, nem perguntamos a nós
mesmos, nesse meio tempo, em que ou entre que sistemas psíquicos
o trabalho de melancolia se processa.
Que parte dos processos mentais da doença
ainda se verifica em conexão com as catexias objetais inconscientes
abandonadas, e que parte em conexão com seu substituto,
por identificação, no ego?
A resposta rápida e fácil é
que "a apresentação" (da coisa) inconsciente do
objeto foi abandonada pela libido. Na realidade, contudo, essa
apresentação é composta de inumeráveis
impressões isoladas (ou traços inconscientes delas)
e essa retirada da libido não é um processo que
possa ser realizado num momento, mas deve, por certo, como no
luto, ser um processo extremamente prolongado e gradual. Se ele
começa simultaneamente em vários pontos ou se segue
alguma espécie de seqüência fixa não
é fácil decidir; nas análises, torna-se freqüentemente
evidente que primeiro uma lembrança, e depois outra, é
ativada, e que os lamentos que soam sempre como os mesmos, e são
tediosos em sua monotonia, procedem, não obstante, cada
vez de uma fonte inconsciente diferente. Se o objeto não
possui uma tão grande importância para o ego importância
reforçada por mil elos , então também sua
perda não será suficiente para provocar quer o luto
quer a melancolia. Essa característica de separar pouco
a pouco a libido deve portanto ser atribuída de igual modo
ao luto e à melancolia, sendo provavelmente apoiada pela
mesma situação econômica e servindo aos mesmos
propósitos em ambos.
Como já vimos, contudo, a melancolia contém
algo mais que o luto normal. Na melancolia, a relação
com o objeto não é simples; ela é complicada
pelo conflito devido a uma ambivalência. Esta ou é
constitucional, isto é, um elemento de toda relação
amorosa formada por esse ego particular, ou provém precisamente
daquelas experiências que envolveram a ameaça da
perda do objeto. Por esse motivo, as causas excitantes da melancolia
têm uma amplitude muito maior do que as do luto, que é,
na maioria das vezes, ocasionado por uma perda real do objeto,
por sua morte. Na melancolia, em conseqüência, travam-se
inúmeras lutas isoladas em torno do objeto, nas quais o
ódio e o amor se degladiam; um procura separar a libido
do objeto, o outro defender essa posição da libido
contra o assédio. A localização dessas lutas
isoladas só pode ser atribuída ao sistema Ics.,
a região dos traços de memória de coisas
(em contraste com as catexias da palavra). No luto, também,
os esforços para separar a libido são envidados
nesse mesmo sistema; mas nele nada impede que esses processos
sigam o caminho normal através do Pcs. até a consciência.
Esse caminho, devido talvez a um certo número de causas
ou a uma combinação delas, está bloqueado
para o trabalho da melancolia. A ambivalência constitucional
pertence por natureza ao reprimido; as experiências traumáticas
em relação ao objeto podem ter ativado outro material
reprimido. Assim, tudo que tem a ver com essas lutas devidas à
ambivalência, permanece retirado da consciência, até
que o resultado característico da melancolia se fixe. Isso,
como sabemos, consiste no abandono, por fim, do objeto pela catexia
libidinal ameaçada, só que, porém, para recuar
ao local do ego de onde tinha provindo. Dessa forma, refugiando-se
no ego, o amor escapa à extinção. Após
essa regressão da libido, o processo pode tornar-se consciente,
sendo representado à consciência como um conflito
entre uma parte do ego e o agente crítico.
No trabalho da melancolia, portanto, a consciência
está cônscia de uma parte que não é
essencial, e nem sequer é uma parte à qual possamos
atribuir o mérito de ter contribuído para o término
da doença. Vemos que o ego se degrada e se enfurece contra
si mesmo, e compreendemos tão pouco quanto o paciente a
que é que isso pode levar e como pode modificar-se. De
forma mais imediata, podemos atribuir tal função
à parte inconsciente do trabalho, pois não é
difícil perceber uma analogia essencial entre o trabalho
da melancolia e o do luto. Do mesmo modo que o luto compele o
ego a desistir do objeto, declarando-o morto e oferecendo ao ego
o incentivo de continuar a viver, assim também cada luta
isolada da ambivalência distende a fixação
da libido ao objeto, depreciando-o, denegrindo-o e mesmo, por
assim dizer, matando-o. É possível que o processo
no Ics. chegue a um fim, quer após a fúria ter-se
dissipado quer após o objeto ter sido abandonado como destituído
de valor. Não podemos dizer qual dessas duas possibilidades
é a regular ou a mais usual para levar a melancolia a um
fim, nem que influência esse término exerce sobre
o futuro curso do caso. O ego pode derivar daí a satisfação
de saber que é o melhor dos dois, que é superior
ao objeto.
Mesmo que aceitemos esse conceito a respeito do
trabalho da melancolia, ele ainda não proporciona uma explanação
do único ponto que nos interessa esclarecer. Esperávamos
que a condição econômica para o surgimento
da mania, após a melancolia ter seguido o seu curso, fosse
encontrada na ambivalência que domina essa afecção,
e nisso encontramos um apoio proveniente de analogias em vários
outros campos. Mas existe um fato diante do qual essa expectativa
tem que se render. Das três pré-condições
da melancolia perda do objeto, ambivalência e regressão
da libido ao ego, as duas primeiras também se encontram
nas auto-recriminações obsessivas que surgem depois
da ocorrência de uma morte. Indubitavelmente, nesses casos
é a ambivalência que constitui a força motora
do conflito, revelando-nos a observação que, depois
de terminado o conflito, nada mais resta que se assemelhe ao triunfo
de um estado de mente maníaco. Somos levados assim a considerar
o terceiro fator como o único responsável pelo resultado.
O acúmulo de catexia que, de início, fica vinculado
e, terminado o trabalho da melancolia, se torna livre, fazendo
com que a mania seja possível deve ser ligado à
regressão da libido ao narcisismo. O conflito dentro do
ego, que a melancolia substitui pela luta pelo objeto, deve atuar
como uma ferida dolorosa que exige uma anticatexia extraordinariamente
elevada. Aqui, porém, mais uma vez, será bom parar
e adiar qualquer outra explicação da mania até
que tenhamos obtido certa compreensão interna (insight)
da natureza econômica, primeiro da dor física, depois
da dor mental análoga a ela. Conforme já sabemos,
a interdependência dos complicados problemas da mente nos
força a interromper qualquer indagação antes
que esta esteja concluída até que o resultado de
uma outra indagação possa vir em sua ajuda.