Linguagem
dos góticos brasileiros reproduz estilo de vida dividido
entre o mercado de trabalho e a subcultura
Eles são pais de família,
vão à padaria, põem gravata, levam o filho
à escola e saem para o expediente. Alguns são até
vovôs. Mas não deixam de ser góticos. Com
todo capricho que define um grupo urbano marcado pelo sombrio:
vestidos de preto na maioria, cultores da noite, com maquiagens
dramáticas e um ar melancólico algo irônico,
quem sabe dissimulado. A cena gótica, que desde as primeiras
importações em 1985 busca afirmar-se no país
como subcultura global, típica da dinâmica das grandes
cidades, integrou-se à economia de consumo, mas sobrevive
sem perder a identidade.
Só na capital paulista estima-se
que algo em torno de 6 mil pessoas (as estimativas são
falhas e temerárias, dizem os góticos) tomaram para
si os sentidos contidos no adjetivo inglês goth, no que
ele sugere de vitoriano, sombrio, misterioso, fantasmal, onírico
e macabro.
Embora não seja fértil em gírias
características, o universo gótico brasileiro tem
uma relação por assim dizer "expressionista"
com a linguagem. É comum o uso consciente de arcaismos
de linguagem ou de um tom premeditadamente pomposo, em sintonia
com uma certa atitude teatral no comportamento.
Palavras antigas, citações latinas,
saudações arcaicas (como "beijos trevosos",
"beijos sangrentos", "saudações terrenas"
e "lembranças eternas"), além de construções
rococós ("Por meio desta vossa senhoria está
convidada..."), povoam mensagens impressas e on-line dos
góticos. É nesse contexto que se pode entender a
popularidade no meio de expressões como carpe noctem,
equivalente soturno para a latina carpe diem (viva
o dia, em alta desde o filme Sociedade dos Poetas Mortos,
de 1989).
A relação dos góticos com
o nome próprio assume também valores para a subcultura.
Muitos adotam codinomes imaginários, mas é comum
ver o nome de batismo vir acompanhado por sobrenome que remeta
a uma música ou cantor de uma banda do gênero. Proliferam,
assim, sobrenomes como Bella Morte, Wolf, Manson.
Ou prenomes formados por títulos aristocráticos
que aludem vagamente ao romantismo vitoriano, como Lord,
Marquês ou Lady (o codinome Deusa
é a moda do momento).
Espírito
de época
Não
há óbvia relação desta subcultura
com a escola estética do Romantismo do século 18,
virada para o 19. Muito menos com os godos da Antiguidade, e é
duvidoso que algum gótico se identifique de fato com o
espírito renascentista que inspirou catedrais como as francesas
Notre-Damme, Chartres e Saint Denis.
"O gótico é uma subcultura
formada por quem não alimenta ilusões de que a sociedade
seja boa, nem que seja possível estar contra ela. Por isso,
cria um espaço em separado em sua vida. É uma visão
critica, mas ao mesmo tempo escapista" - diz o ilustrador
gaúcho Henrique Antonio Kipper, de 36 anos.
Gótico desde que chegou a São Paulo
em 1990, Kipper acredita que a subcultura há muito ultrapassou
o limite efêmero que data e enterra as modas passageiras.
"O gótico dos dias de hoje é
um ser anfíbio, que sofre a pressão para ingressar
na sociedade de consumo quando completa 21 anos. Nem sempre se
conciliam essas coisas. Mas há um "núcleo duro"
que mantém a integridade de "subcultura", algo
que não é movimento com um ideário político,
mas tampouco é só a moda da estação"
- confirma Kipper, que é casado, pai de um menino de 14
anos.
A caricatura mais frívola costuma povoar
o imaginário dark com modelos e ícones que restringem
o gótico à cultura de cemitérios e crucifixos
e a jovens frívolos e preocupados com a aparência.
O chamado "núcleo duro" do gótico nacional,
no entanto, viu muitos adolescentes renovarem as gerações
góticas a cada cinco anos e, do entusiasmo de primeira
hora, desistirem da subcultura quando ingressam pra valer no mercado
de trabalho. À sombra desse público rotativo, muitos
fizeram do comportamento gótico sua razão de ser
e vivem a vida "anfíbia". Só em São
Paulo, estima-se que mil pessoas formem esse "núcleo
duro" do gótico de raiz. Ao contrário de góticos
de outros países, o brasileiro seria anfíbio por
alternativa de mercado, desconfia o publicitário André
Scarabotto, o Lord A, de 28 anos.
"No exterior já há um mercado
melhor definido, em que os góticos podem ser profissionais
dentro da própria subcultura. Trabalham em lojas de roupas,
produção de clipes e revistas, estúdios de
gravação para bandas do gênero".
No Brasil, o gótico teria se tornado mais
anfíbio por, em resumo, não poder ser gótico
o tempo inteiro. Lord A diz que convive com todo tipo de profissional
gótico, como bancários, engenheiros, advogados e
médicos.
"O gótico brasileiro é
um descontente com esse mundo sintético, desumanizado,
onde a sociedade deixa a gente se sentir mal até quando
você não se encaixa em rótulos. Ele reage
a isso, cria uma vida à parte, mas, como não tem
jeito, vai trabalhar no dia seguinte".
Glocal
Surgido na Inglaterra, exportado para a Europa
continental, depois para os EUA e de lá para o Brasil pós-ditadura
militar, o gótico assumiu traços locais, apesar
do internacionalismo ser uma de suas tônicas (um gótico
búlgaro lembrará muito um brasileiro ou inglês).
Kipeer acredita que uma característica lusa muito forte,
a sensação de nostalgia, encontrou forte acolhida
no Brasil. "Mesmo antenados e bem informados, muitos
por aqui tendem a curtir mais as fases antigas do gótico
do que as novidades. A sensação de que houve um
paraíso perdido, uma necessidade de volta ao passado, está
menos contida nas tendências góticas que imaginam
um futuro tecnológico decadente" - comenta Kipper.
Mas não há definições
claras sobre o estado de ser de um gótico. Haveria menos
um sistema de regras para caracterizar alguém como gótico,
do que um de tabus. Os integrantes da subcultura gótica
em muitos casos relegam, na boa, temas considerados recorrentes,
como a bruxaria, o vampirismo e o culto a mortos-vivos.
A sensação de desajuste, o apelo
à vida subterrânea, parecem ser tão definidores
do gótico como o apreço por símbolos recorrentes
(lua, noite, inverno, outono, etc.), por decadência, pelo
expressionismo alemão, pelo terrir de si mesmo e o gosto
por tudo o que lembre uma obscuridade otimista. Poucos grupos
parecem buscar tanto o guarda-chuva de um rótulo para reafirmar
a agonia de ser enclausurado por ele. (Colaborou LCPJ)
Palavras e expressões
góticas
Mexerica
É algo "típicamente gótico".
Pode ter a conotação de "exagerar" ou
ser "afetado" no comportamento, linguajar ou visual
gótico. Gíria já antiga na cena gótica
brasileira, usada tanto de forma carinhosa como pejorativa. Pode
querer dizer que algo é "estereotipadamente gótico,
tanto para o bem como para o mal". Considera-se que todo
gótico tem seu momento mais "mexericoso".
Wannabe
Equivalente a "querer ser" em inglês.
Significa alguém novo no meio, que ainda está aprendendo
ou ainda não sabe muito. Dependendo da pessoa que usa o
termo, pode ser usado no sentido positivo ou, mais comum, como
crítica discriminatória.
Thru
Para os veteranos, é o nome de quem já
era do meio antes da moçada mais nova virar gótica.
Expressão oriunda do universo dos metaleiros. O thru seria
o "mais verdadeiro", "mais real".
Carpe Noctem
Um trocadilho. "Aproveite a noite", variação
gótica para "carpe diem", antigo lema latino
hedonista, propagado no país depois do filme Sociedade
dos Poetas Mortos.
Vampyro
A palavra "vampiro" é grafada
com y propositalmente, para distinguir seus membros do personagem
cinematográfico e folclórico. A subcultura vampyrica
teria a pretensão confessa de compartilhar pressupostos
do existencialismo.
Catar uva
Nomeia um tipo de dança chamado "etereo",
num estilo que permite passos e gestual que lembram vagamente
o movimento de catar uvas no ar. Usada com ironia, a palavra pode
significar que alguém desatento repentinamente "pescou"
idéias no ar.
Limpar teia de
aranha
Modo de mover os braços quando se dança,
como se afastasse teias no ar. Ironicamente empregado no sentido
de "desatualizado".
Antes de sair
à noite, não esqueça os óculos escuros
Baladeiro, o gótico se diverte por toda
a noite e deve estar prevenido para que o sol não lhe doa
a vista, ao sair dos encontros góticos pela manhã.
A frase também alude a um dos fetiches das bandas do gênero,
o vocalista de óculos escuros.
Sobrenatural de
Almeida
Tradição gótica se filia à
literatura romântica com mais facilidade do que com indevido
parentesco com os godos antigos. É unânime entre
os membros do grupo que o termo "gótico" surgiu
a posteriori, depois que as primeiras manifestações
da subcultura começaram a tomar forma, nos anos 70 e 80.
Com significados particulares em diferentes períodos históricos,
a apropriação do termo pela geração
dos anos 80 encontrou eco no ideário difundido pelos romances
e dramas britânicos publicados entre 1764 e 1820, também
conhecidos como Gothic Novel, por seu caráter fantástico.
Remetem a uma atitude espiritual trazida pelo
Romantismo entre a metade do século 18 e início
do 19 que iria solidificar uma postura em defesa da liberdade
de sentir e se expressar, condenando o absolutismo político,
religioso, social e estético. Ambientado inicialmente na
Alemanha e Inglaterra, o movimento romântico vai espalhar
pelo mundo uma nova postura, pautada no pessimismo, na embriaguez
e fuga da realidade, e, fortemente, no elemento fantástico,
principal referência para a subcultura gótica e suas
variantes mais recentes.
Para Cid Vale Ferreira, de 27 anos, autor de Voivode
- Estudos Sobre os Vampiros e editor do site Carcasse,
referência em ciberpesquisa sobre essas subculturas, o elemento
sobrenatural foi fator importante na criação dos
romances e dramas que tinham na superstição medieval
e no humanismo trágico suas principais fontes.
"Na própria Inglaterra, uma das
mais populares correntes do romance gótico baseava-se no
chamado 'sobrenatural explicado' (à Ann Radcliff, com 'assombrações'
forjadas ou apenas aparentes), que, levemente reformulado, daria
origem ao 'romance histórico' do século 19. Na França,
a ambientação de tramas tipicamente góticas
no submundo urbano culminou no 'romance social' à Eugène
Sue. No Brasil, temos no byronismo uma infinidade de obras de
teor fatalista e macabro sem qualquer alusão ao sobrenatural".
O elemento fantástico, que inspirou os
contos do americano Edgar
Alan Poe ou o Frankenstein, de Mary Shelley, estaria presente
na simbologia da subcultura gótica, comumente associada
à noite, às práticas místicas, ao
culto à morte ou a seres de natureza ficcional soturnos,
como vampiros e bruxas, sem, no entanto, explicar em definitivo
seus múltiplos aspectos.
"Muito do que podemos adjetivar de "gótico"
tem no gótico inglês setecentista apenas seu impulso
inicial. A estética em si, com seus peculiares conceitos
de beleza e sublimidade, sobrevive com ou sem o elemento sobrenatural,
com uma incrível capacidade de se adaptar aos tempos e
culturas em que se inscreve."
Texto original
de Kelly Cristina Nogueira
Extraído
de http://revistalingua.uol.com.br