Diz a lenda que o rock gótico
começou na Europa no início dos anos 80, podendo-se
considerar seu marco inicial o suicídio de Ian
Curtis, vocalista da banda inglesa Joy
Division. Idolatrado pelos góticos como Bob Marley
é pelos rastafaris, acabou influenciando toda uma geração
de bandas que estavam começando, dentre elas Legião
Urbana e INXS.
Essa história, o caro leitor já pode
até conhecer. Mas e a explicação de todos
os mitos que envolvem esse movimento?
O principal mistério é: por que raios
andar somente à noite e vestido todo de preto? Pode deixar
que eu respondo: pelo simples fato de quererem se diferenciar
dos punks e hippies. Mas ainda há outras explicações
sobre a roupa preta.
Uns a adotaram apenas por gostarem da cor, outros
por se identificarem com o "clima" que ela proporciona,
também só para chocar com o impacto visual... Como
nos últimos séculos o preto tem sido utilizado como
a cor do respeito aos mortos, muitos outros começaram a
usá-la, talvez pela perda de grandes artistas como Curtis.
Claúdia Silvério, de 27 anos, é
casada e leva uma vida normal durante o dia. Cuida de sua casa,
dos quatro filhos e à noite incorpora seu estilo com uma
maquiagem pesada e roupa preta. "Há treze anos
faço parte do movimento gótico. Gosto de me vestir
assim, ouvir músicas depressivas e sempre que posso vou
ao cemitério".
Já quanto a andar somente à noite,
vem outra dúvida, com várias explicações:
pelo visual que usam, é quase impossível ser vistos
como pessoas normais durante o dia, tanto pelo clima (no caso
do Brasil) como pela formação cultural dos outros.
A noite também tem, por si só, um toque misterioso
e depressivo.
Por que viver tão isolados e curtir uma
música com letras tão depressivas? Os mais antigos
contam que Ian Curtis se matou, basicamente, por dois motivos:
seus problemas de saúde e os desentendimentos com sua esposa,
Débora. Sofrendo ataques sucessivos de epilepsia (que às
vezes aconteciam até durante os shows e não eram
percebidos nem pela banda), o fato é que Ian tinha uma
grande presença no palco. Enquanto cantava, fazia movimentos
que foram chamados de dança epiléptica
(não é piada não!). Era um jeito tão
diferente de se expressar que poderia ser até confundido
com seus ataques, a ponto de ninguém percebê-los.
As
letras do Joy Division eram depressivas ao extremo, refletindo
as angústias pessoais daquele que as escrevia. Bandas que
surgiram tanto em sua época como após sua morte
se influenciaram muito por elas, aperfeiçoando a sua sonoridade.
Para quem já era fã do Joy Division,
foi um passo para conhecer e começar a curtir o que estava
aparecendo. Já a viver isolados, quem está depressivo
vai querer companhia?
Por quê essa fixação por cemitérios?
Existe uma paixão do gótico pelo medieval: desde
o tipo de escrita até a arquitetura e as roupas (a vocalista
da banda Siouxsie and the Banshees, por exemplo, na maioria das
vezes só se vestia com roupas inspiradas nessa época).
Os cemitérios possuem dois elementos que
fascinam os góticos, sua arquitetura (lápides muitas
vezes com anjos e figuras que lembram o medieval) e a paz. É
um lugar de total tranqüilidade!
As pessoas vão para lá para cantar
e tocar violão, dançar, organizar saraus de leitura...
ou não fazer nada! "Tiro muitas fotos quando estou
no cemitério, das imagens de anjos e das grandes arquiteturas.
O cemitério é o local ideal para conversar com os
amigos, ler poesias e meditar, é o lugar mais tranqüilo
que encontrei para me livrar de minhas neuras", disse
Kelly Luziari Varin, de 24 anos.
Ainda quanto ao visual, por que se maquiar? A maquiagem
não é um acessório obrigatório que
todos adotaram, ela é mais utilizada para incrementar o
visual. Ela não tem um significado especial para a maioria
dos que a usam, é usada apenas para manter o visual depressivo.
Bem, agora, com certeza, suas dúvidas sobre
o movimento gótico, ou pelo menos algumas delas, foram
esclarecidas. Não é mais necessário se espantar,
e ficar sem entender quando ver aquela "horda negra"
indo rumo a um cemitério. Eles só estão buscando
paz...
Texto original
de Letícia Cardoso - UNISANTA - 02/06/2001
Jornal laboratório
da Faculdade de Artes e Comunicação da Universidade
Santa Cecília